Dra. Vera Luz, Arquiteta e e Profa. da PUC: “O Ministério Público recentemente decidiu pela inadequação do uso da CARCAÇA do Minhocão como parque ou área de lazer, pelos motivos de incomodidade e insegurança”.

NR: o artigo da Dra. Vera Luz, publicado na Folha de São Paulo

de sábado, 19 de junho de 2016 foi reproduzido em

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191.06 São Paulo

Desmonte do Minhocão

Restauração como medida de futuro

Vera Luz

 Folha de São P

São Paulo, 20 de junho de 2016

Painel do Leitor

MINHOCÃO

  “Assino embaixo dos argumentos de Vera Luz em defesa da demolição total do Minhocão (Restauração como medida de futuro ).

     Essa aberração deve desaparecer da paisagem.

     No futuro, não deverá passar de uma triste memória do tempo em que o abuso urbano foi permitido.

     Como metrópole, São Paulo deve ter propostas à sua altura e escala, não “gambiarras” urbanísticas ou soluções colonizadas.

   Manter o Minhocão é manter física e simbolicamente o “andar de baixo” de nossas cidades: sujo, sombrio e pobre. Tudo o que combatemos”.

     MARCELO FERRAZ, arquiteto e urbanista (São Paulo, SP)

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     NR: apresentamos a seguir o texto completo do artigo da Dra. Vera Luz, que nos foi fornecido gentilmente pela autora.

     O artigo foi publicado, resumido, na FOLHA DE SÃO PAULO,  em TENDÊNCIAS E DEBATES, sábado, 18/6/2016, 1º Caderno, p. 3

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DRA. VERA LUZ, 60, é arquiteta e professora titular da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Pontifícia Universidade Católica de Campinas. Integra o Conselho de Arquitetura e Urbanismo de São Paulo

 

Desmonte do Minhocão:

Restauração como Medida de Futuro

 

     O Elevado Costa e Silva, Minhocão, é uma aberração urbana desde a origem, exemplarmente autoritária, que prestigia o sistema viário de passagem acima de todas as outras e mais importantes questões urbanas, desde logo a qualidade de vida de milhares de pessoas ao seu redor.

 

     Áreas históricas se constroem coletivamente através do tempo e são sujeitas a intervenções de apropriação pelo presente, quando novos pactos são constituídos.

 

     O tecido central de São Paulo, expandido em fins do século XIX e princípios do XX, consolida a conformação do Centro Novo, pela transposição em pontes do Vale do Anhangabaú e uma precisa, porém delicada transição em solo da Avenida São João, em forma de ladeiras, tão caras à articulação viária à geomorfologia desta cidade.

 

     Este eixo remonta, em sua memória ancestral, ao sistema hídrico de fontes e cursos d’água soçobrados durante as várias camadas de urbanização indiferente. Contemplar imagens de Debret, Landseer ou Militão nos faz meditar sobre a responsabilidade de agir em tecidos históricos e enfrentar a pulsação de um presente que possa fazer sentido. Por vezes é preciso dar alguns passos para trás para avançar em novas direções.

 

     A atual Avenida São João contém o rastro pregresso do caminho a Jundiaí e alcança sua completude como boulevard alargado de tradição afrancesada, durante os anos 1920 a 30 – eixo cuja culminância tem, a sudeste, a praça Antonio Prado e o edifício Altino Arantes de 1947, atual Banespa e, a noroeste, articulações viárias até o vale do Tietê e, mais remotamente, a vista longínqua dos finais da cidade vislumbráveis pelo perfil da Serra da Cantareira – anúncios resistentes, da base de Natureza à espera de laços urbanos que a contemplem com novos paradigmas urgentemente necessários.

 

     Centro é uma representação insubstituível do ponto de vista simbólico que deve ser confirmado pelo uso includente e participativo de sociabilidades máximas, vigorosas e mesmo conflitantes. Isto se dá em seu conjunto de espaços públicos, no sistema de calçadas, praças e parques que ancoram a vida urbana cotidiana e momentos de excepcionalidade, preferivelmente a céu aberto. O território urbanizado tem complexidade sistêmica e técnica em sua competência de articular diversas infraestruturas e conjuntos edificados de vários usos.

 

     Ao privilegiar um sub-sistema em detrimento dos demais esse organismo padece e se desvincula de seus princípios fundamentais. Em um centro histórico isto se torna muito grave.

 

     O absurdo do Minhocão, ao privilegiar os carros por meio de uma estrutura suspensa que descaracteriza e estigmatiza o tecido urbano envoltório, depauperando os conjuntos edificados e seus usos predominantes residenciais e comerciais.

 

     Descaracteriza o sistema de espaços públicos, prejudica a qualidade de vida por tamponamento de seus baixos e é importuno, por sua excessiva proximidade, às áreas residenciais.

 

     O Plano Diretor recém-aprovado deu um passo importante preconizando sua desativação viária. Estudos do CET afirmam que o trânsito não será inviabilizado por esta medida.

 

     Soma-se a isto a evidente necessidade de alívio da utilização do transporte automotivo pelo incremento de sistemas coletivos e alternativos e há a possibilidade de reurbanização conveniente da calha ferroviária próxima como apontou projeto realizado em co-autoria com os arquitetos Anne Marie Sumner, Flavio Marcondes, Hector Vigliecca e Tito Livio Frascino e eu em 2006, denominado Ligação Leste-Oeste.

 

     O Ministério Público recentemente decidiu pela inadequação do uso da carcaça do Elevado como parque ou área de lazer pelos motivos expostos de incomodidade e insegurança.

 

     Do ponto de vista técnico-orçamentário o desmonte e remoção são perfeitamente exequíveis, sem transtornos aos habitantes, orçado em R$ 28 milhões e, com reaproveitamento dos materiais será uma operação de lucro. O High-Line custou U$ 240 milhões. Certas anomalias devem ser extirpadas, pois são um erro histórico, felizmente, neste caso, restaurável. É uma inadequação in totum.

 

     A área central é única e não merece adaptar, por costume, camadas equivocadas em sua constituição. Não se trata somente da utilização viária, mas de morfologia urbana nociva que não deve ser naturalizada nem confundida com modelos de parque suspenso que têm articulação urbana totalmente diversa.

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